Uma viagem dolorosa, mas positiva: na contracapa Ligabue observa o céu e suas estrelas, na perspectiva de um mundo não mais amassado e amassado porqueSonhos sempre moldam o mundo.



Um mundo amassado, como um pedaço de papel pronto para acabar em uma cesta. Um mundo distraído, mas não destruído. Um mundo que ainda tem algo a dizer, que exige atenção, abraçado por grades nas quais o título do álbum está estampado em letras de um carrossel vintage. Um mundo pronto para (re) partir do túnel metálico de um aeroporto (segundo e contracapa), para cruzar lugares, vivenciar guerras, terremotos, luto, em uma viagem de instantâneos diretos e sem descontos fixados entre os textos.



Uma viagem dolorosa, mas positiva: na contracapa a artista observa o céu e suas estrelas, na perspectiva de um mundo não mais amassado e amassado porque - e assim fecha o álbum



Os sonhos sempre moldam o mundo.

Essa é a visão de mundo que Luciano Ligabue entrega ao seu público, comCosmovisão(Zoo Aperto srl, distribuição da Warner Music). A obra, agora a mais de três anos deAdeus monstro, conta em 14 faixas, 2 das quais instrumentais, a jornada do artista, suas mudanças (não só no olhar), suas experiências e as de toda uma humanidade agora desacostumada a
comunicação.



Uma evolução que se reflete também nos sons, em cujas pesquisas - afirma o cantor-compositor na coletiva de imprensa - convergiu o maior compromisso. A intenção, ele argumenta, é criar um produto o mais homogêneo possível de se ouvir, onde ao vivo e gravado quase consiga se fundir nos mesmos sons.

Mais leves, até alguns arranjos e inseridos - para dar fôlego à audição - as pausas instrumentais muito curtasCapo SpartiventoéO som, o mau e o feio. O desejo, argumenta, era fazer um disco em que eu estivesse presente e que refletisse a sonoridade do grupo atual e que evitasse o método de trabalho dos discos modernos.

Afinal, para o artista (coletiva de imprensa, Milão, 22.11.13), o rock éa melhor maneira de gritar seus sentimentos na cara das pessoas.

Para abrir o trabalho, éA parede de som. Um som, sem compromisso e com sabor vivo, o das guitarras que acompanham o grito de raiva que o artista lança sobre aquelaspode dormir / não importa como foi. Sob acusação, oolhos sempre / distraídos do mundo, onde toda história é reescrita na economia, onde vive o tempo da justiça rasgando, onde o vampiro - na escalada para o sucesso - não se desculpa e não paga por todo aquele sangue.

Mas o que grita o compositor não é apenas indignação. É um impulso de derrubar a parede, de reagir, de transformar a dificuldade em oportunidade. Sim, porque cada um de nós pode fazer muito. Sim porque umfósforo esfregado no escuro / irradia mais luz do que pensamos.

Veias da alma e som mais doce, paraNós somos quem somos, a segunda faixa em que Ligabue se entrega a reflexões mais introspectivas, no canto e na recitação final, em que o ouvinte pode se encontrar enquanto se observa no espelho e entende que não se pode escapar de certas certezas. E se a vida não dá indicações, ela te coloca lá para errar, escolher caminhos entre mil cruzamentos, são as rugas que falam claramente das tentativas que nunca fiz.

Propaganda Voltar a vestir-se de rock, as notas deO volume de suas mentiras, uma foto do desencanto feminino de quem descobre que o conto de fadas é muito diferente da realidade e tatuam uma almadura dentro / muito mais do que leva. Uma peça que se aprecia pela pena capaz de delinear com extremo realismo a experiência de uma mulher ferida, que já se arredondou e que mente - traindo-se - quando, voltada para o mar, rapidamente vira os olhos e o coração.

perda de memória por estresse

E não creio que seja por acaso que a terceira música dê lugar ao conto de fadas, desta vez com um final feliz, cuja narração é acompanhada pela sedutora atmosfera melódica deA neve não liga(anteriormente o título de um romance de Ligabue). A balada se move ao som de conto de fadas de uma guitarra que encontra seu diálogo, nas últimas notas, em um piano que não surpreende, mas tranquiliza. Uma música que você ouve
abertamente, imaginando-se tocado pelas penas de uma neve caindo que o obriga a um tempo diferente. Muito íntimo, o instantâneo em que ofala sério comigo / nessa geadae ame beije de verdade / que o céu inteiro não caia / que ainda estamos um embaixo do outroevocam a magia de dois cílios molhados que prometem tudo.

O Social está de volta com o lançamento do single “O sal da terra”, uma reclamação para aqueles que, com a Montblanc entre os dedos, podem te matar. Sem marca política, no entanto, por queaté canções raivosas são canções sentimentais(da entrevista concedida a Fabio Fazio).

Ainda amo emVocê é ela, uma declaração de eternidade que reflete o sonho de toda mulher: ser escolhida, apesar de defeitos como o amanhã, o futuro, o projeto de seu homem. Um homem que seus olhos realmente conhecem (Já os vi muitas vezes nus / mas você nunca os viu lábem”).

Injetar energia pura, a rocha da pistaNascido para viver, em que a raiva se torna um motivo para nos lembrar que estamos na Terra para viver agora e aqui.

Uma vida posta à prova emA terra esta tremendo meu amor, peça dedicada ao terremoto que atingiu Emília e à necessidade vital de uma profunda reconstrução - não só arquitetônica - mas existencial (enfatiza o cantor-compositor), visando resgatar pontos de referência, afetos e certezas. Amor, destruição e morte, portanto, mas também renascimento. Estas são as chaves de amanhã. Além disso, uma catástrofe que cristaliza almas em face deO grito das entranhas- posso citar um dos meus poemas, escrito na noite do terramoto que destruiu a minha cidade em 2009 - muda perspetivas e expectativas, porque te coloca diante de um quadro em que, paralisado, só tuidosos paravam na parede / crianças já fantasmas / e em volta só vazios.

Voltamos aos primeiros amores, infância, família, comPara sempre, balada nostálgica que lança flashbacks tocantes para o ar, fotografias de momentos vividos com os pais, aos quais cantampara sempre / apenas para sempre / o que isso levará você sozinho o tempo todo. Uma eternidade encerrada em alguns momentos, entre um discurso e um solo de guitarra. Uma música que chega.

O contraste entre a poesia do Natal e a intensa dor do luto que esvazia todo pensamento de sentido, que faz refletir sobre o que é e o que não é, está bem narrado emO que resta de nós, na minha opinião uma das peças mais intensas do trabalho. E a melodia, com sua alternância de sons, ora suaves ora ásperos, harmoniza-se com o sofrimento e a vontade de compreender.como não foi / e o que não aconteceu. O convite é captar a essência do que fica para além de uma emoção efêmera, que (e tomo emprestadas as palavras do autor) dura cinco minutos e depois passa.

Então, na esteira de Dreams of rock'n'roll e In full rock'n'roll, não poderia faltar uma referência direta ao estilo amado pelo artista, queCom a desculpa do rock'n'roll(faixa n.13) sustenta di averdisse coisas que não pude dizer e fez coisas que não pude fazer.

alucinações noturnas em idosos

Ligabue nos cumprimenta comSonhos sempre moldam o mundo. Sons que querem se instalar, sem sufocá-los, nas sensações dadas ao ouvinte. A ideia é transmitir a força para ainda acreditar na força dos sonhos, porque - diz o compositor - tudo o que deu forma ao mundo passou pelo sonho de quem então o fez acontecer.

Também aqui o sonho torna-se realidade, instrumento e meio para devolver ao mundo aquela dignidade e aquela forma de sociedade
ele sabia como privá-lo.

E se também somos feitos de canções - porque somos história e porque a citação é o sintoma do amor não podemos desistir (da sinopse à obra de G. Antonelli: Mas o que você quer que seja uma canção) - Ligabue-nos entregou muito de si mesmo (confessa:Eu contei tudo em minhas canções. Eu me despi)

Resta, então, nos investigar para entender se realmente queremos que nossa terra continue girando em torno de um formato, veiculado em Mondovisione, filho da presunção, da aridez e da superficialidade. E se não é isso que queremos, vamos devolver o sal a esta terra e dar forma ao mundo.

ITEM RECOMENDADO:

Entrevista com Sananda Maitreya - Música e identidade

BIBLIOGRAFIA:

  • Ligabue, L. (2013). Visão de mundo. Zoológico aberto. Distribuição da Warner Music COMPRAR
  • Antonelli, G. (2010) Mas o que você quer que uma música seja. O moinho COMPRAR
  • Ligabue, L. (2013) A vida não rima (tanto quanto eu sei). Entrevista sobre as palavras e textos de G. Antonelli, Laterza COMPRAR
  • Pascasi, S. (2013). O grito das entranhas (tirado de Com três quartos de um coração). Edições Galassia Arte COMPRAR